Eu escrevi com letra maiúscula que não escreveria mais nada. Mas até aí já estava escrevendo. Meio caminho de insensatez andado, continuei. Eu sou sempre assim. Quero fazer o certo mas começo errando. Esse texto começou errado. Mas como começar um texto que fala de fim? Não. Não quero falar de fim. Corrigindo, quero falar de mim, que aliás, leva um pouco de nós. Eu quero escrever sobre o que restou de mim. Que foi pouca coisa, mas foi suficiente. Eu escolhi guardar o amor. E sobrou pouquinho. E eu estou triste, mas sem amor eu seria muito pior. E fiquei com medo de mim. Então amei pra não me perder. E continuo assim. Juntando frases soltas para dizer que talvez nunca exista um ponto final. Ou exista um, dois, três... mal colocados, são reticências.
Esse texto é diferente de todos que já li. Porque você não foi embora, nem eu. Foi o tempo que se perdeu. Entre nós mesmos. E nos afastou anos e anos, mas continuo aqui. Você ainda está aqui? Quanto tempo se passou desde que eu te escrevi "adeus"? Um dia? Uma hora? A saudade faz sim do tempo uma eternidade, mas nos seus olhos eu encontro o agora. Aliás, você sempre dizia, vamos viver o agora. Eu não sei viver o agora, porque agora me dá agonia. Ansiedade. Sem você não tem ombro pra deitar. Só tem coisas que façam o tempo passar. Eu não quero mais parar no agora.
Por favor, não leia mais. Feche os olhos e vá dormir. Ou saia com alguém. Mas pare aqui. Você não merece ler mais uma besteira minha. Eu não te disse antes porque não sei dizer. E já nem me banco a cronista ou escritora, tudo que fiz até hoje foi escrever cartas. Me falta muita coragem pra falar, eu prefiro ficar aqui. Idealizando um futuro que sei lá eu se chegará. Eu prefiro ficar de canto te observando, me inspirando, entre um piscar e outro, uma lágrima dentro de mim, que não escorre na face, só se guarda no peito. E me enche de força pra continuar assim. Olhando pra frente. Porque você não está atrás, no passado. Você está aqui na minha frente, no meu presente, no meu sonho, cada vez mais longe, cada vez mais... Intocável.
Talvez seja isso (des)amar. Apenas viver. Dia por dia. Deixando o tempo levar tudo que foi ruim. Mas também não posso me esquecer senão viverei de voltas. Ah por favor, me deixe um minuto. Não consigo escrever. Pensar nisso dói muito. Deixa pra depois, deixa pra lá. Finge que esquece. Eu não aguento. Desculpa. Não era nada disso que eu ia escrever. Apenas saiu sem querer. Por impulso ou por querer demais. Quero que volte, que pare de acumular desgostos em mim toda vez que vira os olhos fingindo que não me conhece.
É um amor engaiolado que se não alimentar morre, mas se liberta-lo, já não sabendo voar sozinho, morrerá também. Então eu alimento esse amor na tristeza de seu cárcere. Seria melhor mata-lo? Não consigo. Deixe que o tempo se encarregue. Um dia eu esqueço da hora, ou ele foge num descuido meu. Até lá mantenho ele aqui. Vivinho. Tristinho. Cansadinho. Mas cantando. Mas pulando pra lá e pra cá. E me mantendo viva também. Eu já não vivo sem o que sou. E eu sou saudade, totalmente errônea, e eu sou amor. E você, o que se tornou depois disso?